Fintechs: a revolução tecnológica no setor financeiro

Atualizado: Jan 25

Vanessa Rocha | 02/06/2018


Recentemente, o IPO (processo de abertura de capital) do Banco Inter chamou a atenção dos brasileiros para o termo “fintech”. Afinal, o que realmente são essas empresas? A expressão vem da mistura dos termos ingleses “finance” e “tecnology” e tem sua origem atribuída a um programa de aceleração de startups realizado em Nova Iorque. Consiste, basicamente, no uso de tecnologias e inovações para a entrega de serviços financeiros.

Mas os serviços oferecidos não são similares aos dos bancos? Por um lado, sim. Por outro, apesar de serem próximos, esses mesmos são ofertados pelas fintechs de forma diferenciada, explorando as fraquezas e deficiências das grandes instituições tradicionais. No Brasil, esse novo setor encontrou espaço para prosperar por conta da concentração do sistema bancário, que é formado por uma quantidade limitada de grandes bancos, quase que em um problemático formato de oligopólio.


Segundo o FMI, nosso país é um dos mais concentrados do mundo no mercado bancário. As principais instituições são bem estabelecidas no mercado, com uma enorme proporção tanto de ativos geridos quanto de operações montadas. Assim, a entrada de qualquer novo player é extremamente complexa, sendo impostas gigantescas barreiras. Entre essas dificuldades, podemos citar a forte regulamentação, uma vez que as instituições financeiras estão sujeitas à extensa regulação do Banco Central, com grupos estrangeiros, por exemplo, necessitando de autorizações especiais para operar no território brasileiro. Além disso, o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) é o responsável por manter a competitividade dos mercados e proteger o consumidor e, mesmo assim, aprovou a fusão de duas grandes casas em 2015, o Itaú e o Unibanco, permitindo uma ainda maior concentração do setor. Dessa forma, torna-se mais difícil a entrada de outros competidores, que não teriam potencial financeiro ou estrutural para competir com esses grandes players, que, muitas vezes, acabam sendo por eles adquiridos.

Participação dos 4 grandes bancos no total de ativos do setor bancário

Como em qualquer estrutura oligopolista, são gerados diversos efeitos colaterais para os consumidores, sendo o principal deles a ineficiência e consequentes preços altos e serviços piores. No caso do setor bancário, essas questões são ainda mais evidentes, já que apresenta uma taxa de juros recorde e processos extremamente burocráticos e complexos.


Apesar das grandes barreiras de entrada, é evidente que existe um claro nicho a ser explorado. Qualquer outro concorrente que oferecesse taxas menores e maior qualidade nos serviços ofertados, encontraria espaço no mercado, estimulando a migração bancária dos consumidores e a melhora das próprias instituições tradicionais de crédito e é nesse cenário que surgem as fintechs, atuando nessas áreas de “falhas” dos mercados por meio da tecnologia. Assim, são empresas focadas em inovação, em prol de criar ferramentas e processos mais eficientes e facilitar o acesso dos clientes aos serviços financeiros, diminuindo a burocracia e melhorando a experiência do usuário.


Além de apresentar um serviço de qualidade desejado pelos consumidores, as startups conseguiram prosperar por apresentarem desvios às barreiras de entradas impostas. Os custos, por exemplo, são bem mais baixos por não precisarem de estabelecimentos físicos, muitas vezes com as transações se dando estritamente por aplicativos. Outro exemplo é a pouca quantidade de serviços oferecido por cada empresa, não precisando da estrutura de um banco tradicional.


No Brasil, já é possível enxergar diversos exemplos de empresas que estão se estabelecendo no mercado consideravelmente, como por exemplo, a Nubank. Fundada em 2014, operava inicialmente com apenas um produto: o cartão de crédito internacional. Apesar de se tratar de um serviço comum oferecido por vários bancos, o diferencial era o justamente todo o processo oferecido. Tudo era feito por meio do aplicativo, disponível para smartphone, aparecendo a notificação logo após a compra, possibilitando a formação de uma linha de tempo com os gastos feitos. Dessa forma, o serviço se tornava mais compreensível ao cliente, dando-lhe um controle maior de suas próprias finanças. Além disso, pela diminuição dos custos fixos, a empresa não cobrava anuidade no cartão. Outros exemplos são a Ebanx, empresa criada para facilitar pagamentos brasileiros em sites internacionais, via transferência ou boleto; o Guia Bolso, um aplicativo de gestão financeira que ajuda na escolha de linha de créditos e monitora o CPF dos usuários, e o Creditas, que é uma plataforma de contratação de empréstimos bancários a taxas menores do que as do mercado.


No entanto, ainda há vários problemas e incertezas sobre o setor, com os desafios em relação à regulação e à segurança de dados sendo os principais. O recente caso da liquidação do Banco Neon e suspensão das operações de sua fintech, mostrou o quanto esses problemas podem ser relevantes. Existem, também, dúvidas com relação à questão da continuidade. Especialistas acreditam que esse pode ser um nicho “rojão”, isto é, aparecer com muita força, mas sumir logo em seguida, seja pela ascensão de grandes players ou pela aquisição dessas empresas pelos bancos tradicionais, como foi o caso da XP (adquirida pelo Itaú) e do ContaSuper (adquirido pelo Santander), o que coloca em risco o caráter inovador dos projetos.


Por último, apesar de todas as indefinições, não há como negar a importância das fintechs para o setor bancário como um todo. Representam uma força de competitividade a um mercado estagnado e conservador que já está chamando a atenção dos grandes bancos. Muitos deles, inclusive, já participaram de aquisições e investimentos e estão focando em melhorias nos seus próprios serviços, seguindo o movimento de modernização. Portanto, mesmo que os novos players não consigam se estabelecer no futuro, já podem ser considerados responsáveis por um grande impulso no sistema bancário, que tende a continuar gerando um serviço mais acessível e de melhor qualidade, proporcionando uma melhor experiência para os clientes.