Mulheres no Mercado Financeiro

Atualizado: Jan 25

Ana Carolina Prates & Isadora Valle | 07/06/2020


"In the future, there will be no female leaders. There will be just leaders" - Sheryl Sandberg, COO do Facebook


O mercado financeiro é um ambiente predominantemente masculino e, como mulheres, temos a meta de mostrar, através deste artigo, que há sim espaço para as mulheres atuarem na área. Além de trazer diversidade para o ambiente, elas agregam com uma perspectiva de pensamento diferente. Comecemos nossa análise, então, com uma abordagem histórica-conjuntural, explorando como esse tema vem se desenvolvendo ao longo dos anos e abordando alguns fatos que estão sendo realizados para mudar esse cenário.


Eufrásia Teixeira de Leite foi a primeira mulher brasileira a investir na Bolsa de Valores. Em 1890, quando a investidora realizava suas primeiras transações, mulheres eram proibidas de frequentar o local onde eram realizadas as operações, tendo que ficar em um andar separado dos homens. Desde então, o número de mulheres presentes na bolsa cresceu e elas ficaram mais independentes financeiramente. Entre fevereiro e março de 2020, no início do agravamento do coronavírus, o número de investidoras na Bolsa ultrapassou os 500.000 pela primeira vez, atingindo um crescimento de 46%, maior que dos homens. Apesar do avanço, mulheres ainda são a minoria dos CPFs registrados na B3, representando menos de um quarto das pessoas físicas. Ademais, embora o número de entrantes na Bolsa esteja em expansão, desde 2015 a quantidade de mulheres presentes se estagnou em 23%. Contudo, quando avaliamos a participação feminina no Tesouro Direto, o qual é tido como um investimento seguro, é notório que essa tem crescido, atingindo um percentual de 31,4% em 2019.


Fonte: B3


Tal argumento pode ser justificado pela tendência dos homens a serem mais confiantes que as mulheres, o que é refletido nas estratégias de investimento - o gênero masculino costuma suportar mais volatilidade no seu portfólio. No entanto, vale ressaltar que as mulheres possuem uma maior visão de longo prazo, se mantendo mais firmemente em suas posições e, assim, demonstram uma menor aversão à perda. Entre fevereiro e março, no período de grandes quedas na Bolsa causadas pelo COVID-19 e suas incertezas, somente 4% das investidoras fizeram alterações em suas carteiras de previdência, enquanto 7,5% dos homens fizeram negociações nesse segmento financeiro.


Além disso, como aponta estudo da Fidelity Investments, mulheres geralmente obtém retornos melhores em sua carteiras. Na crise econômica de 2008, o prejuízo do gênero feminino em fundos de investimento norte-americanos foi de 9,6%, enquanto o dos homens foi de 19%. Tendo em vista o período entre 2000 e 2009, o rendimento anual das investidoras foi de 9%, ao passo que o dos investidores foi de 5,82%. Estes resultados podem estar relacionados com as estratégias de investimento de cada gênero, como mencionado. Segundo Neil Stewart, professor de Ciência Comportamental da Warwick Business School, homens são mais atraídos por ações especulativas, enquanto mulheres são mais propensas a focar em ações que já possuem um bom retorno histórico de valorização.


A partir desses fatos, torna-se relevante analisar o motivo de mulheres serem minoria no setor de investimentos. Um primeiro ponto a ser analisado são as causas históricas: homens costumam ter maior retenção e controle das decisões financeiras familiares, apesar do rendimento das mulheres representar cerca de 40,9% do rendimento das famílias, de acordo com pesquisa do IBGE. Outro fator relevante é a falta de representatividade nos altos cargos de empresas do setor. O Brasil ocupa o terceiro pior lugar de países com relação a mulheres assumindo posições de liderança. De acordo com o estudo da Bain & Company em parceria com o LinkedIn, mulheres são apenas 3% das líderes empresariais no Brasil. A falta de profissionais mulheres em cargos altos no mercado financeiro é um empecilho à entrada de novas participantes desse gênero no mercado, haja vista que elas têm dificuldade de encontrar modelos com quem possam se identificar. A carência de lideranças femininas gera outra barreira nos investimentos: por, de uma maneira geral, progredirem menos que os homens na carreira, elas tendem a ganhar menos e, consequentemente, possuem menos recursos para investir. As mulheres ganham em média, 20,5% menos que homens, de acordo com o IBGE. O fato de mulheres investirem US$450, em média, a menos do que homens é um reflexo dos dados mencionados.


É importante ressaltar, ainda, que apenas 2% dos CEOs de empresas listadas no S&P 500 são mulheres. Muitas mulheres não consideram o mercado financeiro por ser um ambiente predominantemente masculino e a maioria dos autores de livros e artigos sobre o assunto também são homens. Muriel Siebert foi a primeira mulher a conseguir um lugar no NYSE (New York Stock Exchange), e isto ocorreu apenas em 1967. Siebert era a única dentre 1365 homens. Ela concluiu, por meio de suas observações, que mulheres têm uma visão de longo prazo, são mais pacientes e não tem tanta pressa para conseguir fundos lucrativos, em comparação com os homens.


Bianca Nasser, CFO do BNDES, relata que sente que o nível de performance exigido das mulheres para promoções ou indicação de cargo gerencial é mais alto. Porém, ela relata que a perspectiva de ingresso de mulheres no mercado financeiro é muito positiva, pelo reconhecimento do benefício da maior diversidade nas equipes de trabalho. Como exemplo desse reconhecimento, o banco Goldman Sachs não fará mais IPOs de empresas americanas ou europeias que não tenham diversidade no seu board, exigindo que haja negros ou mulheres. O banco Goldman tem 11 pessoas em seu board, das quais 4 são mulheres.


Portanto, a própria evolução da sociedade, mais pluralista e abrangente, permite uma maior ascensão social das mulheres e das minorias em todos os segmentos da economia. A mudança gradual do cenário garante que há oportunidade para as mulheres. A meritocracia, presente na cultura de diversas empresas do mercado financeiro, permite que mulheres possam ser promovidas de maneira justa e ganhem um salário igual aos dos homens, quando ocupam o mesmo cargo, viabilizando a ascensão das mulheres nesse segmento. Esse sistema compensa as pessoas pelos seus méritos e desempenhos pessoais.


Mariana Dreux, sócia da TRUXT, ressaltou como a meritocracia a ajudou, pois, apesar de o ambiente financeiro ser predominantemente masculino, Mariana sempre apresentou bons resultados e foi bem recompensada por isso. Mariana vê um aumento no número de mulheres no mercado financeiro desde que ingressou na área, em 2001, no Banco BBM, e também uma grande mudança comportamental, estando a área mais aberta a receber bons profissionais independente de seu gênero.


Sendo assim, apesar dos números que não as favorecem e de um preconceito que um dia foi predominante, acreditamos que há uma mudança na visão das mulheres como profissionais nos últimos anos. A meritocracia e a modernidade podem ser grandes aliados para as mulheres conquistarem cargos renomados em bancos e gestoras. Além disso, muitas instituições vêm promovendo debates sobre inclusão para atrair um maior número de mulheres a suas equipes. O surgimento de novas empresas de mercado financeiro voltadas para atender mulheres como a Ella's Investimentos e o ElasBank é um reflexo dos avanços sociais. A LMF PUC-Rio ressalta que, em nossa instituição, valorizamos a cultura da meritocracia, então, iremos valorizar o seu trabalho e esforço independente do gênero. Portanto, caso você seja uma mulher interessada em mercado financeiro, não hesite em se inscrever em nosso processo seletivo.


Bibliografia:

1- Individual Investing: men or women, Fidelity Investments, 2020. Disponível em:

https://www.fidelity.com/about-fidelity/individual-investing/better-investor-men-or-women

2- Goldman não fará IPOs de empresas cujos diretores sejam todos brancos, InfoMoney, 2020. Disponível em:

https://www.infomoney.com.br/negocios/goldman-nao-fara-ipos-de-empresas-cujos-diretores-sejam-todos-homens-brancos-excluindo-asia/

3- Portal de informações do IBGE, IBGE, 2020. Disponível em:

https://ibge.gov.br/

4- Portal de Informações da B3, B3, 2020. Disponível em:

http://www.b3.com.br/pt_br/

5- Portal de Informações do Tesouro Direto, Tesouro Direto, 2020. Disponível em:

https://www.tesourodireto.com.br/

6- Mulheres ainda são só 24% dos investidores na Bolsa, ValorInveste, 2020. Disponível em:

https://valorinveste.globo.com/objetivo/hora-de-investir/noticia/2020/03/08/mulheres-ainda-sao-so-24percent-dos-investidores-na-bolsa-e-31percent-no-tesouro-direto.ghtml

7- A Bolsa cairia menos se as mulheres fossem a maioria no mercado financeiro, ValorInveste, 2020. Disponível em:

https://valorinveste.globo.com/blogs/naiara-bertao/post/2020/04/a-bolsa-cairia-menos-se-as-mulheres-fossem-a-maioria-no-mercado-financeiro.ghtml

8- Número de investidoras na Bolsa ultrapassou os 500 mil pela primeira vez, ValorInveste, 2020. Disponível em:

https://valorinveste.globo.com/blogs/naiara-bertao/post/2020/05/numero-de-investidoras-na-bolsa-ultrapassou-os-500-mil-pela-1a-vez.ghtml

9- Por que mulheres seguem minoria no mercado financeiro?, InfoMoney, 2020. Disponível em:

https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/por-que-mulheres-seguem-minoria-no-mercado-financeiro/

10- 7 números, uma verdade: as mulheres ainda tem muito a crescer no mercado financeiro, InfoMoney, 2020. Disponível em:

https://www.infomoney.com.br/mercados/7-numeros-uma-verdade-as-mulheres-ainda-tem-muito-a-crescer-no-mercado-financeiro/