Biden x Roosevelt: como o novo presidente americano se assemelha ao criador do New Deal?

Atualizado: Jun 18

Fernanda Nogueira e Nicholas Gontijo


Desde que Joe Biden assumiu a presidência dos Estados Unidos, um novo quadro foi pendurado sobre a lareira do salão oval: um retrato do seu ídolo, o ex-presidente, também democrata, Franklin D. Roosevelt. Mas os paralelos entre Biden e FDR não se resumem ao mesmo partido. Ambos assumiram a presidência em meio a um contexto econômico conturbado, marcado por recessão e desemprego, e buscaram soluções semelhantes: pacotes de estímulos com o intuito de reaquecer a economia, elevando enormemente os gastos públicos. Apesar de o governo americano ter receitado o mesmo remédio, os sintomas daqueles dois períodos são intrinsecamente diferentes.


Na década de 1920, os Estados Unidos já haviam se consagrado como a maior economia do mundo, o crescimento econômico pós-primeira guerra era impressionante. Imagine um período com a produção industrial “bombando”, a renda per capita maior, com queda do desemprego e da inflação, além de avanços tecnológicos marcantes com os novos processos de produção na indústria automobilística, conhecida como Fordismo. Esse período de euforia econômica foi impulsionado pela expansão global do “American Way of Life”, pautado no consumismo. Parece incrível, não é? Entretanto, se tudo corria tão bem assim, o que ocasionou o cenário que FDR encontrou ao assumir os EUA em 1932?


Ao mesmo tempo em que o consumismo refletia o lema da época, ele também contribuiu para o crescimento da produção industrial desenfreada: o país basicamente produzia sem analisar se haveria demanda para esses produtos. A euforia do momento se estendeu para os bancos, que facilitaram o acesso a empréstimos, sem intervenção do estado, não levando em consideração fatores importantes como a inadimplência, ou seja, o fato de que as pessoas talvez não fossem capazes de honrar seus pagamentos.


Dessa forma, podemos observar que a crise se inicia a partir de um quadro de superprodução, combinada pela estagnação dos salários na década de 1920. Assim, a disparidade entre a estagnação da remuneração e o aumento da produção industrial ocasionou a manutenção do poder de compra ao longo do período. Se o seu salário era mantido e a produção só aumentava, em algum momento essa produção iria perder o valor. Aqui vale lembrar da lei da oferta e da procura, pois quanto mais mercadoria disponível, menor será o seu valor.


Além desses fatores, a falsa sensação de desenvolvimento levou a população a se aventurar na bolsa de valores, aumentando a especulação financeira e levando a uma bolha que marcou o estopim da crise. No dia 24 de outubro de 1929, ocorreu a “Quinta-Feira Negra”: nesse dia, a bolsa de valores dos EUA caiu 33%, muitos especuladores perderam tudo e foram reportados ao menos 11 suicídios em Wall Street.


A Crise de 1929 ou como ficou conhecida, a Grande Depressão, é considerada a maior crise da história do capitalismo e do liberalismo econômico clássico. O período é caracterizado pela alta das taxas de desemprego, queda na produção industrial, queda na produção de riqueza do país, falência de empresas e bancos. Além disso, atingiu diversos países com seus efeitos, com reflexos negativos em questões políticas. Essas consequências te lembram de alguma coisa?


Caso não tenha, vale traçar o paralelo que vivemos ao longo de 2019, quando experimentamos uma época de expansão econômica. Entretanto, em contraste a 1929, a euforia de 2019 não causou a crise que se seguiu. Algo muito inesperado ocorreu. A descoberta de que um vírus originado na cidade de Wuhan, na China, havia se espalhado pelo mundo. Não tardou muito e países ao redor do globo anunciaram medidas restritivas de entrada e saída de bens e pessoas. Em seguida, vieram os lockdowns em função da pandemia que se instaurou.


Você, é claro, já conhece essa história. Mas, o que talvez ainda não saiba são as implicações econômicas que ocorreram e que nos trouxeram à recessão que vivemos hoje.


O primeiro impacto foi um choque de demanda causado por uma queda no consumo. Durante o primeiro mês de lockdown, muitos assalariados mantiveram seus empregos mesmo sem estar trabalhando, mas deixaram de consumir. Contudo, os empresários já sabiam o que estava por vir: a queda súbita na receita das firmas trouxe consigo inevitáveis cortes de custos, entre eles demissões. Com o aumento do desemprego e redução de salários, as pessoas consumiram menos. Esse ciclo vicioso é causado pelo que os economistas denominam: fluxo circular da renda (o consumo de uns determina a renda de outros que, por sua vez, determina o consumo e, assim, a renda de outros). Por isso, faz sentido pensar nesse choque como sendo uma força deflacionária: quanto menos pessoas querendo comprar um produto, menor será seu preço, ou seja, uma queda de preço devido à queda de demanda.


Ao mesmo tempo, houve um choque de oferta causado pela interrupção da produção industrial e de diversas cadeias de suprimentos. Isso acarretou uma queda nas exportações e importações ao redor do mundo. Com menos produtos disponíveis, seu preço tenderá a subir. Por essa razão, podemos pensar nesse choque como uma força inflacionária.


Com a combinação desses dois choques tivemos um período em que houve alta das taxas de desemprego, queda na produção industrial, queda na produção de riqueza, falência de empresas, o que atingiu diversos países, com grande impacto nas questões políticas e sociais. Muito parecida com a crise iniciada em 29, não é mesmo?


Podemos destacar, entretanto, duas diferenças principais entre aquelas crises: a primeira durou mais de uma década e a segunda caminha para completar o segundo ano. Além disso, a grande depressão teve efeitos deflacionários na economia, enquanto a atual recessão tem caráter inflacionário. Isso se deu em parte como consequência do choque de oferta, mas também das políticas expansionistas que foram receitadas pelos bancos centrais ao redor do mundo. Falaremos disso a seguir, e veremos também que a conjuntura política dos Estados Unidos nos períodos que precederam as crises não era tão diferente.

Voltemos então para 1929: na época, o poder estava com o partido republicano, com a maioria no Congresso e o presidente Hoover à frente do país. O presidente havia tomado algumas medidas moderadas, sem muito impacto em relação ao tamanho da crise, sem contar o fato de que a população estava insatisfeita, clamando por mudanças. Dentro desse contexto, FDR se elege prometendo restaurar a confiança na economia e na sociedade. Ele possuía maior poder de diálogo com a população, e isso fica claro quando veteranos se manifestaram em Washington, durante o seu governo. Ao invés de dispersar violentamente a manifestação, o presidente recebeu seus líderes para um café. Mais uma vez, percebe alguma semelhança com o período em que Joe Biden se elegeu?

Se não percebeu, podemos esclarecer: em 2019 o Congresso americano era controlado pelo Partido Republicano. O presidente Donald Trump se viu diante de uma crise econômica e social na qual era necessário maior cuidado na hora de estabelecer suas políticas. Da mesma forma, o presidente rejeitou o uso de máscaras e o distanciamento social, mas distribuiu um auxílio emergencial de 600 dólares. A população clamou por mudanças e elegeu um presidente progressista, com promessas de restauração da economia americana e de união. Joe Biden foi eleito com os slogans “Build Back Better” e “Unite for a Better America”. Ele iniciou seu mandato aprovando uma segunda leva de auxílios, de valor duas vezes maior do que o de Trump: 1.200 dólares. Mas se tiveram causas tão diferentes, porque os remédios receitados foram tão parecidos?


Ao assumir a presidência em 1933, FDR reconheceu que a intervenção estatal massiva era necessária para salvar o sistema econômico e aliviar os conflitos sociais. O Estado então retomou as propostas reformistas da era progressista, implementando um programa inovador de intervenção estatal em todas as áreas da economia e sociedade. O plano chamado de “New Deal” foi um plano de medidas econômicas e sociais proposto pelo presidente para resgatar a economia americana da crise de 1929 e tinha como objetivo criar condições para diminuição do desemprego, através de investimentos estatais e privados.


Podemos resumir o objetivo do New Deal em três palavras: "alívio, recuperação e reforma". O alívio era urgentemente necessário para dezenas de milhões de desempregados. A recuperação significava impulsionar a economia de volta ao normal. Já a reforma significou correções de longo prazo do que estava errado, especialmente nos sistemas financeiro e bancário.


Em um primeiro momento, o plano não tinha características muito radicais. O primeiro New Deal era um pacote de reformas para promover a recuperação industrial e agrícola, regular o sistema financeiro e providenciar mais assistência social e obras públicas. Foram criados órgãos públicos que se provaram ineficientes e a economia piorou, ganhando força política e propostas mais radicais. Em resposta, o presidente lançou o segundo New Deal, em 1935, com programas ampliados de assistência social emergencial, criação de impostos sobre fortunas privadas, um sistema de relações industriais que incentivou a sindicalização, além da previdência social voltada para os desempregados, crianças, deficientes e aposentados. Três anos depois, criou-se legislação voltada para a construção de habitação pública, garantir um salário mínimo e limitar a jornada de trabalho.


Usando os meios de propaganda política, apelando para os sentimentos de justiça social e fazendo alianças com políticos regionais, sindicatos, intelectuais e muitos imigrantes, Roosevelt e o partido democrata criaram um programa político que duraria duas gerações.


Em pouco menos de um ano como presidente americano, Joe Biden já enviou ao Congresso três pacotes de estímulo à economia denominados: “Resgate, Infraestrutura e Empregos”.


No Plano de Resgate Americano já ocorreu a segunda distribuição de cheques de auxílio emergencial, a extensão do seguro-desemprego, além do subsídio integral, até setembro, dos planos de saúde empresarial dos trabalhadores demitidos antes de março de 2021.


O Plano de Infraestrutura deve ser o maior dos três, com um orçamento estimado em US $2,3 trilhões. Com esse plano, Biden pretende promover mudanças estruturais de magnitude histórica nos Estados Unidos, com foco em melhorar a infraestrutura americana e iniciar a transição para fontes de energia mais verdes. O plano inclui: US$600 bilhões para transporte, US$400 bilhões para serviços de atendimento domiciliar e força de trabalho, US $300 bilhões para indústrias, $200 bilhões para moradias e US$100 bilhões para escolas, entre outros.


O terceiro plano é o Plano de Empregos Americanos, que tem como objetivo melhorar a rede de proteção social (aquela mesma inaugurada pelo New Deal de FDR), com ampliação da cobertura de saúde, financiamento à educação e licenças aos trabalhadores.


Os três planos, somados, possuem um gasto estimado em US $6 trilhões, o que deverá elevar a dívida americana ao patamar, até agora inédito, de 109,7% do PIB do país, superando os 106,1% alcançados no fim da Segunda Guerra Mundial. Em seguida, estima-se que essa porcentagem deverá aumentar a cada ano, alcançando 117% em 2031.


Todos os presidentes americanos dos últimos anos contribuíram para que a dívida americana tomasse as proporções gigantescas que possui hoje, mas Biden parece estar se esforçando para que a sua contribuição seja a maior de todas. Entretanto, ele ainda terá que superar Donald Trump e Barack Obama: um presidente republicano que conseguiu passar uma reforma tributária que reduziu impostos e aumentou gastos em um único mandato e o último presidente democrata, o que mais expandiu o amparo social do Estado Americano desde FDR.


Até agora, o plano parece estar funcionando. Biden assinou um projeto de lei de “alívio da Covid” de US $1,9 trilhão em março, embora a pandemia estivesse diminuindo e o Congresso já tivesse gasto US $4,1 trilhões na pandemia. Ele agora está propondo US $4 trilhões adicionais em gastos apenas este ano. Na próxima década, os gastos deverão totalizar US $69,2 trilhões: o que já supera em 8 trilhões a estimativa do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), em fevereiro.

Entretanto, o risco de um aumento de gastos agora que os EUA se aproximam do fim da crise é grande: até o presente momento a taxa de juros básica americana (o FED Funds rate) está em sua mínima histórica, de 0.25%. A essa taxa, financiar um aumento de gastos do governo americano não será uma tarefa tão difícil, mas os juros não podem se manter nesse patamar para sempre: As expectativas de inflação do mercado americano já subiram, e se isso acontecer de forma brusca e inesperada, as taxas de juros poderão impedir a realização do plano de Biden.

Ademais, há um segundo ponto importante a ser analisado; As medidas que Biden quer implementar e as que ele poderá fazer podem ser completamente diferentes: Caso os democratas tivessem obtido a mesma maioria esmagadora, nessas eleições, quando da época de FDR, Biden poderia implementar uma ambiciosa agenda que combateria o desemprego e o aquecimento global conjuntamente. Entretanto, o presidente americano se vê à mercê de um Congresso bastante dividido: os democratas possuem maioria simples no senado (graças ao voto de desempate ser da vice-presidente Kamala Harris), o que dá espaço para que os senadores republicanos obstruam as votações de pautas das quais eles discordam, caso consigam o apoio de congressistas democratas mais moderados. Isso significa que Biden provavelmente terá que depositar suas esperanças em projetos de lei menos ambiciosos, com amplo apoio entre os democratas, inclusive a ala menos progressista do partido.


Analisando as soluções propostas por Biden, podemos concluir que há grandes chances de que o impacto das medidas apresentadas pelo novo presidente dos EUA seja ainda maior do que o das de FDR. Isso porque, apesar de o New Deal ter inaugurado partes importantes da rede de proteção americana, como a previdência social e o seguro desemprego, ele não atingiu seu objetivo principal de acabar com a Grande Depressão. Foi a Segunda Guerra Mundial, que gerou empregos nas forças armadas e na indústria armamentista, que tirou os Estados Unidos da depressão, com um custo humanitário imensurável. Em contrapartida, o fator político do equilíbrio bipartidário, pouco relevante para FDR, será um obstáculo importante para o ambicioso plano do atual presidente.


Cada recessão é diferente e possui suas peculiaridades. Apesar de divergirem em muitos aspectos, as duas crises possuem paralelos muito instigantes, tanto econômicos quanto políticos. Seguiremos aguardando ansiosamente os novos capítulos da política americana para entendermos qual será o caminho que Joe Biden irá trilhar. Quanto às comparações com seu ídolo, a história irá dizer se serão lembrados por suas semelhanças ou por suas diferenças.


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