Esquemas financeiros

Por Julia Abreu


A ideia de ganhar dinheiro de uma forma mais fácil sempre atraiu muita gente. No entanto, é seguro afirmar que normalmente essas duas palavras não andam muito bem juntas e acabam trazendo mais malefícios do que benefícios quando aplicadas com essa ideia. Foi tendo em vista esse aspecto bastante proeminente dos desejos humanos que surgiram inúmeros esquemas que visavam a explorar o fato de as pessoas acreditarem na possibilidade de ganho de “dinheiro fácil”.

Esse artigo, em uma edição comemorativa do dia da mentira, objetiva explicar como funcionam os esquemas financeiros, relatar alguns casos mais famosos e apresentar como eles surgiram.

Os dois modelos mais famosos são os esquemas de Ponzi e o de pirâmide, que são muito parecidos em essência, só divergem um pouco em seu modus operandi. De forma bastante simples, esses tipos de esquema consistem na promessa de retornos extraordinários pelos seus investimentos. No entanto, diferentemente dos investimentos normais, esses só são sustentáveis enquanto a gama de pessoas participando da organização continuar aumentando. Sua premissa básica é de que, para pagar um investidor, é preciso roubar de outro, ou seja, eles utilizam o dinheiro dos novos investidores para pagar o lucro dos mais antigos e assim em diante. Mas a verdade é que eventualmente a conta não fecha e muita gente acaba perdendo grande parte das suas economias com isso.

O esquema de Ponzi surgiu ainda nos anos 20, pelo plano do italiano Charles Ponzi. Ele atraiu milhares de investidores e arrecadou mais de 20 milhões de dólares em poucos meses, o que hoje seria algo equivalente a 265 milhões, aproximadamente, corrigindo pela inflação. Ele prometia um retorno de 50% em 45 dias através da operação de arbitragem¹ com cupons postais de resposta internacional. No entanto, tais cupons nunca foram sequer adquiridos. Como de costume com todos os esquemas financeiros, a operação logo desmoronou quando ele eventualmente não conseguiu mais pagar os investidores novos. O governo então o acusou Ponzi de fraude postal e ele foi condenado a cinco anos de prisão.

Apesar do caso de Charles Ponzi ter dado nome ao esquema, a sua história não é a mais famosa. O maior esquema de Ponzi da história foi operado em 2008 por Bernard Madoff. O ex-presidente da Nasdaq e fundador de uma firma de investimentos com o seu nome foi acusado de fraude em 2008 quando os investidores decidiram resgatar os seus fundos em meio à crise. Seu fundo havia apresentado rendimentos consistentes de 11% ao ano por 15 anos e Madoff havia conseguido U$ 65 bilhões ao longo desse tempo.

Quando foi descoberto, foi condenado a 150 anos de prisão por um tribunal em Nova York. Entre as maiores vítimas do seu crime estão inúmeras instituições famosas, como o Banco Santander e o HSBC. Além disso, a perda de somente os 9 maiores investidores no esquema contabilizam mais de U$ 20 bilhões.

Já na cadeia, Madoff ainda foi capaz de organizar um monopólio dentro da penitenciária federal de Butner, na Carolina do Norte, onde ele comprou todos os pacotes de Swiss Miss diretamente com as autoridades e, posteriormente, os vendeu aos detentos por um preço mais alto. O mais impressionante é que isso não causou revolta em meio aos outros presidiários: Madoff é visto como um herói entre eles. Por ter sido um dos maiores ladrões da história, seu crime é, de certa forma, idolatrado entre os demais. Além disso, ele também se tornou referência dentro do presídio quando o assunto era finanças pessoais, chegando a dar dicas, a maioria bem sucedida, aos colegas sobre qual ação deveriam comprar.

Existe uma série de características básicas comuns a praticamente todos os esquemas de Ponzi e que podem ser utilizadas como sinais de alerta na hora de decidir onde realizar o investimento:

  • Retornos excessivamente elevados e constantes

  • Investimentos de agências não registradas

  • Falta de informação

  • Falta de documentação

  • Dificuldade na retirada do dinheiro

Similarmente, os esquemas de pirâmide também são muito comuns e acabam, muitas vezes, sendo mais difíceis de serem identificados. Como já dito, a grande diferença dos esquemas de Ponzi para os de pirâmide está no modo como essa operação funciona. No esquema de Ponzi, uma única pessoa é responsável por toda a organização do projeto, é o “gestor do portfólio”. Já o esquema de pirâmide está mais próximo de um “esforço coletivo”, por assim dizer, no qual o recrutador inicial convida um número X de pessoas para investirem em um dado projeto e essas pessoas devem convencer uma gama ainda maior de investidores e assim por diante. O que dificulta muito a investigação do crime e torna os esquemas de pirâmides mais difíceis de serem identificados.

Uma das denúncias mais famosas de um esquema de pirâmide que existe ainda hoje é o caso da Herbalife. Essa é uma famosa empresa estadunidense de nutrição e controle de peso. Eles contam com inúmeros distribuidores responsáveis por vender os produtos aos consumidores finais. Em troca disso, a pessoa poderia ganhar uma comissão de centenas de milhares de dólares por ano. No entanto, é preciso considerar que a ênfase no “poderia” é bem forte no discurso da companhia: logicamente, a possibilidade existe, mas não é nem um pouco comum que um de seus distribuidores assuma esse status. No caso da Herbalife, especificamente, cerca de 90% dos seus distribuidores não ganham dinheiro com o seu trabalho na companhia, um número extremamente elevado, típico de esquemas de pirâmide.

Nos últimos anos, muitas denúncias surgiram apontando a Herbalife como um esquema de pirâmide. Diferentemente de companhias regulares, que conseguem o lucro vendendo o seu produto aos consumidores, a empresa de suprimentos arrecada o seu dinheiro através da venda de itens extremamente acima da faixa ideal de preço para os seus distribuidores. Essa é a base do funcionamento do esquema de pirâmide. O problema é que muitas pessoas perdem milhares de dólares com isso. Para poder se qualificar como um distribuidor, é preciso adquirir uma quantia mínima de produtos. No entanto, por ser um produto extremamente caro, poucos clientes estão dispostos a comprá-lo. A partir disso inicia-se o efeito em cadeia do esquema de pirâmide: para tentar arcar com os gastos anteriores com o produto, é preciso trazer novos distribuidores à companhia. Quando esses distribuidores também não conseguem vender os seus produtos, são obrigados a fazer a mesma coisa, e assim em diante.

Muitas das características dos esquemas de pirâmides são parecidas com as do de Ponzi. No entanto, em alguns casos específicos, nos quais a empresa tem um produto material a ser oferecido, outros aspectos típicos também devem ser observados para analisar a possibilidade ou não de ser um esquema:

  • Exigem que você invista o próprio dinheiro na companhia

  • Colocam uma ênfase muito forte no recrutamento de novos profissionais

  • Estrutura de comissão complexa

  • Estratégia de marketing extremamente elaborada para chamar novos distribuidores

  • Falta de vendas fora da rede de distribuidores.

No Brasil, um caso recente de um possível esquema de pirâmide descoberto foi o da Braiscompany. Sob o discurso de ser a maior holding de blockchain na América Latina, a empresa prometia rendimentos mensais de cerca de 15%, valor completamente fora dos níveis de mercado e muito superior ao rendimento de um dos maiores investidores de todos os tempos, Warren Buffett. A empresa, que afirmava atuar utilizando-se da estratégia do day trade, na qual busca-se o lucro através da realização de operações diárias, teve um crescimento gigantesco no Brasil no último ano. Recentemente, foi desmascarada pelo fundador da Suno Research, Tiago Reis. Logo após o início das postagens, o rendimento que antes girava em torno dos 15% mensais prometidos, começou a cair pela metade. Isso pode ser considerado um forte indicador de que se tratava de fato de um esquema de pirâmide.

Quando iniciou-se o escândalo, as pessoas perderam a confiança na empresa, com isso, tornou-se mais difícil sustentar aqueles que já estavam dentro da pirâmide e o retorno caiu. Um dos principais pilares para esquemas desse tipo é justamente a confiabilidade das pessoas no negócio: não faz sentido investir o seu dinheiro em um negócio desse tipo, pois ele irá, eventualmente, colapsar, uma vez que é impossível a cadeia continuar crescendo infinitamente e, com isso, o prejuízo pode ser gigantesco. São poucas as pessoas que conseguem resgatar o seu dinheiro a tempo. A grande maioria perde muito ao se envolver com essas formas de golpe.

Apesar de geralmente serem descobertos e os organizadores saírem punidos, ainda hoje existem inúmeros esquemas de Ponzi e de pirâmide pelo Brasil e no mundo e, infelizmente, muitos podem parecer oportunidades de negócio legítimas. É preciso prestar atenção aos sinais típicos dessas organizações. Se parece muito bom para ser verdade, é porque provavelmente é.



¹ Arbitragem: consiste na “correção do preço” do ativo. É uma operação de compra e venda do ativo visando ao lucro pela diferença de preço desse em diferentes mercados.


FOGAÇA, ANDRE. O Que é Esquema Ponzi e as Fraudes Mais Famosas. The Capital Advisor - Notícias, Artigos e Opiniões de Especialistas em Investimentos. Disponível em: <https://comoinvestir.thecap.com.br/o-que-e-esquema-ponzi-e-as-fraudes-mais-famosas/>. Acesso em: 27 mar. 2021.


Bernie Madoff cria monopólio de chocolate quente – dentro da prisão. Época Negócios. Disponível em: <https://epocanegocios.globo.com/Dinheiro/noticia/2017/01/bernie-madoff-cria-monopolio-de-chocolate-quente-dentro-da-prisao.html>. Acesso em: 27 mar. 2021.


Ex-presidente da Nasdaq é preso por fraude de US$ 50 bilhões nos EUA. InfoMoney. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/mercados/ex-presidente-da-nasdaq-e-preso-por-fraude-de-us-50-bilhoes-nos-eua/>. Acesso em: 27 mar. 2021.