A Tesla e o futuro da indústria automobilística

Por Bruno Ramos e João Pedro Erven


Em um ano marcado por perdas significativas nos mercados globais, um dos ativos que mais se valorizou em 2020 foi a Tesla - o preço de suas ações subiu mais de 740% no período e a empresa se tornou mais valiosa que a soma das 10 montadoras mais tradicionais do mundo. Apesar de ter apresentado resultados financeiros positivos nos últimos tempos, a companhia ainda não atingiu os patamares de receita de seus principais concorrentes, sendo seu preço a mercado pautado, principalmente, nas suas expectativas e projetos para o futuro. Para entender esses ganhos, este artigo buscará analisar os rumos da indústria automobilística mundial e como a Tesla tem ditado e aproveitado as tendências do segmento.


Desafios e tendências do setor


O setor de automóveis vem sendo um dos mais pressionados por grandes líderes mundiais a realizar transformações estruturais. A implementação do sistema de créditos de carbono, que limita a quantidade aceitável de gás carbônico emitido pelas companhias, tem sido um grande problema para as montadoras tradicionais: apenas no ano de 2020, arcaram com mais de 14,5 bilhões de euros em multas na União Europeia. Segundo o relatório da ONU “Situação Global do Transporte e Mudança Climática Global”, o setor de transporte é responsável por cerca de 25% das emissões globais de dióxido de carbono, o principal gás estufa emitido pela queima de combustíveis fósseis. China, União Europeia, Japão e Índia estão entre aqueles que já manifestaram intenções de proibir a venda de carros a combustão em um futuro próximo. Além disso, outro ponto imprescindível para o fenômeno da eletrificação da frota de automóveis é a perspectiva de esgotamento do petróleo. Segundo estimativas, no atual ritmo de produção e consumo, o combustível deve acabar em cerca de 40 anos.


Dessa forma, alinhado com o comportamento do mercado como um todo, o setor de automóveis apresenta a sustentabilidade como um dos grandes pilares para o seu desenvolvimento. Cada vez mais, as companhias do ramo concentram-se em modificar suas frotas de veículos, que utilizam majoritariamente gasolina e diesel, para comercializar carros elétricos e híbridos. Esse crescimento exponencial será transformado em um ganho expressivo de market share por parte desses veículos na indústria automobilística, vide projeção abaixo:


Fonte: Deloitte analysis, IHS Markit, EV-Volumes.com


Contudo, a popularização dos carros elétricos ainda enfrenta grandes desafios, tanto pelos altos custos quanto pelo aspecto da sustentabilidade. Apesar deste tipo de veículo possuir o diferencial de não emitir poluentes durante seu funcionamento, a matriz energética do país no qual é produzido pode zerar essa vantagem ambiental: a confecção das baterias desses automóveis é feita, muitas vezes, a partir de energias não renováveis, o que aumenta sua pegada de carbono (índice que mede o quanto certo produto ou atividade emite carbono na atmosfera) em proporções significativas. Assim, estima-se que um carro elétrico teria que percorrer cerca de 80000 km para compensar suas emissões decorrentes da fabricação. Ademais, o lítio - matéria prima utilizada na montagem das baterias - é um recurso não renovável e de difícil extração e reciclagem. Por outro lado, conforme os países modifiquem as composições de suas matrizes energéticas para meios sustentáveis e aprimorem os processos de fabricação e o descarte de resíduos, a produção das baterias se tornará mais ecológica e os carros elétricos serão bem mais viáveis na perspectiva ambiental quando comparados aos tradicionais.


Outro empecilho a se considerar diz respeito à autonomia dos carros elétricos, que é menor em comparação aos automóveis movidos a gasolina. Neste âmbito, apesar de não representar um problema relevante para a locomoção urbana, essa limitação torna-se considerável quando se trata de grandes distâncias. O presidente da JAC Motors, Sérgio Habib, argumenta que, para 400 km declarados, por exemplo, o alcance na prática será pouco superior à metade disso. A rigor, diz ele, basta ligar o ar condicionado para se perder 10%, reduzindo a capacidade para 360 km. Além disso, o modo de carregamento rápido das baterias, realizado muitas vezes em estações Supercharger, reduz a vida útil dos veículos.


Em países de primeiro mundo, esses carregadores estão por toda parte e o abastecimento do carro não parece ser um grande problema. Contudo, em países subdesenvolvidos, não somente os altos custos de instalação dessas estruturas devem ser tratados, mas também o aspecto cultural se torna uma adversidade. Além da falta de pontos de postos de carregamento, o alto custo da eletricidade, como no caso do Brasil, torna inviável que estabelecimentos públicos, como garagens e postos de gasolina, permitam o uso de sua rede elétrica para carregar carros elétricos de terceiros. Pragmaticamente, comprar um Tesla em países como o Brasil significaria pagar R$500 mil em um carro e não poder ir a mais de 200 km da sua casa com ele.


A partir dessas informações, fica evidente o quão desafiador é a mudança para baterias elétricas no setor de transporte. O próprio CEO da Tesla, Elon Musk, admite que ainda faltam inovações tecnológicas para tornar os carros elétricos igualmente eficientes, em todos os aspectos, aos carros usuais. Principalmente ao pensar em veículos de grande porte, como caminhões e ônibus, essas transformações estruturais se tornam ainda mais complicadas, uma vez que necessitam de muito combustível e costumam percorrer grandes distâncias. Segundo cientistas brasileiros, que fizeram uma análise inédita na atmosfera paulistana, esses automóveis representam 5% da frota, mas respondem por metade da poluição. Em suma, apesar da urgência, o abandono dos combustíveis fósseis ainda possui muitos obstáculos.


Além dos carros elétricos, os veículos autônomos também se tornaram uma grande tendência da indústria automobilística, principalmente com o advento da pandemia. Em março de 2020, quatro veículos começaram a circular de forma totalmente independente na cidade de Jacksonville, Flórida (EUA), de modo a garantir o transporte mais seguro de testes de Covid-19. Os carros autônomos oferecem uma solução eficaz em meio ao contexto de distanciamento social, como exposto em um estudo da consultoria McKinsey. A instituição ainda afirma que a pandemia ditará mudanças permanentes nas preferências de mobilidade da população, que, cada vez mais, optará por alternativas de transporte individual.


Veículos autônomos já navegam nas rodovias dos Estados Unidos e de vários outros países desenvolvidos, portanto a questão a ser debatida não é mais “se” essa tecnologia será implementada, mas sim “como” isso será feito e “quando” ela será popular. Mais uma vez, a Tesla foi uma das primeiras empresas a tomar medidas sérias para tornar a autonomia veicular uma realidade, entretanto sua vantagem de uma década parece ter sido desperdiçada - a empresa continuamente move a chegada do nível 5 de autonomia (“sleep in the car autonomy”) para uma data futura. Companhias como a Alphabet's Waymo, do Google, ou o carro Super Cruise, da General Motors, já apresentam tecnologias mais avançadas que a Tesla - e a disputa vem sendo cada vez mais acirrada conforme outras montadoras como a Honda, Nissan, Toyota, Ford e Volkswagen se inserem no mercado de carros autônomos.

As perspectivas para o futuro deste segmento são animadoras: previsões indicam que até 2045 mais de 70% dos carros vendidos integrarão algum tipo de tecnologia autônoma. O gráfico abaixo representa o ritmo de crescimento deste mercado até 2024, com um CAGR (Taxa de Crescimento Anual Composta) altíssimo, de 25,7%:


Fonte: Variant Market Research


A partir dessa análise, é necessário entender o modelo de negócio da Tesla e como ela enfrentará os desafios e as tendências da indústria.


Tesla: história, linhas de atuação e perspectivas futuras


A Tesla foi fundada em 2003 pelos engenheiros Martin Eberhard e Marc Tarpenning em San Carlos, Califórnia. Seu nome foi dado em homenagem ao inventor do século XIX Nikola Tesla, mais conhecido por descobrir as propriedades dos campos eletromagnéticos rotativos. Seu trabalho resultou no que é conhecido como "corrente alternada", a forma de transmissão elétrica utilizada até hoje.


O objetivo da companhia, desde o início, era desenvolver e produzir carros totalmente elétricos. Com perspectivas convergentes, Elon Musk, fundador do PayPal, ingressou no Conselho de Administração da empresa em 2004 e desde então tem sido a principal figura no negócio, tornando-se CEO em 2008.


A Tesla, hoje em dia pioneira no mercado de EVs, teve um começo bastante turbulento. Lançou seu primeiro modelo em 2009, o Roadster, que era pouco acessível, custando mais de US$ 100 mil, e apresentava diversas limitações, como um tempo de carregamento das baterias de mais de 1h.


No início, a empresa arcou com significativos problemas financeiros. Em 2009, tinha menos de US$ 10 milhões em dinheiro em caixa, potencialmente menos do que precisava para entregar os carros que já tinha vendido. Um empréstimo subsequente de US$ 465 milhões do Departamento de Energia em junho deu à Tesla o capital de giro de que precisava para sobreviver. Seus projetos, apesar de inovadores, demoraram para ter viabilidade e se tornarem lucrativos. A empresa registrou lucro em um trimestre apenas em 2009, e somente 11 anos depois, em 2020, conseguiu lucrar em todos os trimestres do ano.


No gráfico abaixo é possível observar o market share global do segmento de elétricos:



Fonte: Statista


É possível observar um domínio considerável da Tesla, que é ainda mais significativo quando se analisa apenas o mercado estadunidense: a companhia representa 81% do market share no país. Seus modelos, além de apresentarem uma velocidade digna de carros esportivos, possuem os mais variados gadgets eletrônicos, que permitem ao usuário até jogar videogames dentro do veículo. Os automóveis possuem, inclusive, “easter eggs”, que podem fazê-los “dançar balé”, por exemplo. Esses fatos parecem apenas curiosidades, mas eles mostram o perfil inovador da empresa, e isso tudo acrescenta de forma intangível em seu valuation, explicando, de certa forma, a valorização excessiva de seus papéis, que muitas vezes não é entendida pelo mercado.


Outro ponto interessante é o marketing da companhia: a Tesla não gasta com anúncios. Elon Musk, sempre ativo em redes sociais e influenciando fortemente o desempenho de ações através de suas postagens, é o grande trunfo da empresa para a comercialização de seus produtos e a venda de seus projetos futuros. Além disso, a empresa não utiliza intermediários para vender seus automóveis: isto é, se você quiser comprar um carro da Tesla, terá que fazer isso através do próprio site da montadora. É possível encontrar “lojas” em diversos shoppings pelos Estados Unidos, mas elas funcionam apenas como showrooms, posto que vendas presenciais não acontecem. Através dessa prática, os compradores acabam pagando menos, visto que não há a comissão de intermediários incluída no preço do veículo.


Apesar da empresa estar majoritariamente direcionada à fabricação e distribuição de automóveis elétricos, ela também atua em projetos de sustentabilidade envolvendo armazenamento de energia, como as estações de carregamento Supercharger já comentadas, e fabricação de painéis solares. A empresa lançou painéis 17% mais baratos e com um aumento de 10% na conversão de energia quando comparados com a média do setor. Além disso, o produto também oferece um visual mais sofisticado em comparação com os painéis convencionais - inclusive, eles são difíceis de serem identificados, pois a proposta é parecer uma telha normal. Elon Musk anunciou também recentemente as vendas e instalações do Solar Glass Roof 3.0, a nova versão das telhas de vidro da Tesla, que, segundo ele, é mais barata e tem uma instalação mais fácil e rápida que as versões anteriores.


Todavia, o segmento de soluções energéticas da Tesla não tem avançado de forma satisfatória. Em fevereiro de 2020, Musk anunciou que esta tecnologia deveria chegar ao mercado internacional até o fim do ano, o que não aconteceu. Ademais, o portal Engadget divulgou que as telhas da empresa pegaram fogo, uma no Walmart e outra em um depósito da Amazon. Vale lembrar que a companhia também anda tendo dificuldade de honrar todas as encomendas da pré-venda, o que acontece com uma certa frequência com o segmento de automóveis da empresa, a Tesla Motors. Atualmente, mesmo enfrentando ações judiciais por quebra de contrato e negligência após os supostos incêndios, a expectativa do empresário é que a venda do Solar Glass Roof cresça de forma representativa: “vai crescer como alga marinha com esteroides”, disse durante uma sessão de perguntas e respostas. Ele ainda promete um valor de venda parecido com o de um telhado normal.


Fonte: Flickr


Feitas todas essas considerações sobre a empresa, é difícil definir se ela de fato vale seu preço de mercado: se por um lado, ela vem enfrentando diversos processos jurídicos, é negociada a um P/L de mais de 170x (comparado com a média da indústria de 17x) e tem dificuldades de atingir as próprias metas, por outro, ela representa 81% do segmento de elétricos nos EUA, está se expandindo para outros mercados como a China e seguindo o prognóstico da profecia autorrealizável - a própria expectativa massiva no futuro da empresa reflete um funding gigante no mercado, que é suficiente para permitir um crescimento orgânico no longo prazo. Esse aspecto contribui para que a Tesla esteja cada vez mais saudável financeiramente, permitindo também um crescimento na produção de automóveis: a companhia entregou 500.000 carros esse ano, que é o break even para lucrar com a venda de veículos, e promete aumentar esse número ao longo dos próximos anos.


O intuito deste artigo, contudo, não é fazer uma recomendação de compra ou venda, mas é difícil ignorar que, em uma das piores recessões da história, uma empresa majoritariamente inserida no setor de consumo cíclico tenha tido uma valorização de 740% nas suas ações. O perfil inovador da empresa, assim como suas expectativas para o futuro, possuem grande influência nessa apreciação, mas a verdade é que a pessoa por trás de toda operação é um de seus maiores responsáveis.


Por mais que Elon Musk seja taxado de louco e inconsequente por muitos, não se pode negar os seus feitos que, até então, eram considerados impossíveis: primeiramente, ele criou um meio de pagamento que substituía os bancos, algo inédito até o momento. Em seguida, ele sobreviveu à crise de 2008 com uma startup de carros elétricos, em uma época em que o aquecimento global não estava em voga como hoje, e com uma empresa de sistemas aeroespaciais, que até hoje não está tendo lucro. Esta mesma empresa foi a primeira companhia privada a lançar um foguete em órbita, e fez isso gastando uma fração do que a Nasa gastava. Esses são só alguns marcos da carreira do empresário, que, por mais que polêmico, segue quebrando barreiras. É difícil saber o que vai ser da Tesla no futuro - essa é uma das maiores dúvidas do mercado atualmente - mas com Elon Musk como CEO, espera-se que ela ainda vai dominar as manchetes por muito tempo, para o bem ou para o mal.


Fontes:


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