Tesla: a “queridinha” dos short-sellers

Atualizado: Jan 25

Frederico M. Coelho | 25/04/2018


Recentemente, o jornal Financial Times classificou a Tesla como a ação mais shorteada do mercado americano. Mas afinal, porque os investidores apostam tanto contra a empresa?


Primeiramente, devemos esclarecer alguns conceitos que serão abordados ao longo do texto:


Short-selling


A prática, também conhecida como venda a descoberto, se resume em apostar contra a ação, ou seja, crer que a mesma irá se desvalorizar. Para isso, investidores alugam ações de outros investidores (que cobram taxas para isso), as vendem e compram de novo a um preço mais baixo, ficando assim com a diferença. As operações de aluguel de ações são reguladas pela CBLC (Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia).


Imagem 2: Como funciona o aluguel e venda a descoberto de ações

Tesla


A Tesla é uma companhia de carros elétricos norte-americana que conquistou o coração do mercado e viu seu valor ultrapassar o de players tradicionais, como a Ford e a General Motors, mesmo vendendo incríveis 84 vezes menos do que a GM, por exemplo. Ao longo dos últimos anos, adquiriu a SolarCity, grande player no mercado de energia solar, e começou as operações em sua “Gigafactory”, a maior fábrica de baterias do mundo, procurando diminuir os seus custos e produzir a maior parte de seus componentes “em casa”.


A empresa é comandada por Elon Musk, empreendedor e visionário conhecido por suas proezas e visões futurísticas. Elon conquistou sua primeira fortuna ao fundar as start-ups Zip2 e X.com, que veio a se tornar o que hoje é conhecido como Paypal. Atualmente, o sul-africano comanda, além da Tesla, a SpaceX, companhia aeroespacial que tem como missão principal levar o homem a Marte, a Neuralink, que planeja integrar o cérebro humano às maquinas e a The Boring Company, que está em fases avançadas de desenvolver um novo método de transporte inovador.


Com isso em mente, nos resta entender como avaliar uma empresa tão única e entender as principais razões que levam os investidores a apostarem tanto contra a Tesla. Para entender esse complexo case, iremos recorrer a Aswath Damodaran, o “pai do valuation”. Damodaran, em um vídeo recente sobre o valuation da própria companhia, classificou a Tesla como “The Story Stock”, nome que esclarece seus pensamentos. Na visão do renomado investidor, avaliar essa ação depende de como você conta a história da própria empresa. Perguntas que, a priori, seriam simples, como em qual business a companhia realmente foca ou qual o mercado a companhia pretende atingir, já não têm resposta ordinária ao se falar de Tesla. Para Aswath, entender se ela é uma empresa automobilística, de energia ou de tecnologia e se, para o futuro, ela tentará dominar o mercado de alta renda ou entrar no mercado de massa são alguns dos pontos essenciais para avaliar a mesma.


Imagem 3: o valuation de acordo com a classificação do business da companhia – Aswath Damodaran

Parece difícil acreditar que uma companhia que venda tão poucos carros e enfrente tantos problemas de produção, sendo conhecida no mercado por postergar todos os prazos estabelecidos para seus pedidos, seja avaliada acima de outras montadoras que chegam a produzir e vender mais de oitenta vezes o número de carros do que a rival. Entretanto, a Tesla não é simplesmente uma empresa de carros, mas também pioneira em sua missão de tornar normal a utilização de carros elétricos e a primeira a conseguir produzir algo que realmente rivalize e assuste as tradicionais montadoras. Não só pelo seu produto, mas também por sua genial abordagem estratégica, os produtos da Tesla são considerados por muitos o “Iphone” dos carros. Com um preço relativamente baixo, os carros, que hoje já são considerados símbolos de status e consciência ecológica, podem ter suas funções atualizadas sem sair de casa, recarregados gratuitamente em estações que utilizam energia solar e, muitas vezes, contam com uma inovadora tecnologia de piloto automático (polêmica, porém muito bem recebida por seus consumidores).


Por um lado, é completamente plausível entender todo o amor que a companhia conquistou do mercado ao longo de seu crescimento. Não se espera nada menos de um business que enfrenta as tradicionais e gigantescas empresas do setor automobilístico, trazendo à tona o desenvolvimento de carros “verdes e inteligentes” de maneira nunca vista antes.


Por outro lado, é intuitivo entender porque os investidores apostam tão ferozmente contra a Tesla. Quando comparada aos seus concorrentes automobilísticos, a companhia fabrica e vende uma quantia absurdamente menor de carros, ou seja, gera muito menos caixa. Além disso, apresenta, desde sua fundação, problemas constantes de produção e cumprimento dos prazos de entrega, fazendo seus consumidores esperarem anos para por as mãos em seus novos carros. Recentemente, Elon Musk admitiu que a automatização excessiva, processo que tinha como objetivo principal resolver os problemas na cadeira produtiva da companhia, atrasou ainda mais a entrega do novo Model 3. Paralelamente, a empresa adquiriu um alto grau de endividamento ao longo dos anos, contraindo dívidas para se financiar, e jamais, desde sua fundação, gerou qualquer tipo de lucro, apresentando prejuízos constantes ao longo dos anos e perdendo um valor de U$ 675 milhões apenas no quarto trimestre de 2017.


Em resumo, avaliar a Tesla definitivamente não é uma tarefa simples, pelo contrário, pode se tornar uma missão um tanto quanto complexa. Porém, uma coisa é clara: é preciso contar a história certa. Para os investidores que enxergam a empresa como uma mera fabricante de carros, o cenário de desvalorização das ações é mais do que óbvio. Já para aqueles que enxergam o futuro que a Tesla pode construir, investir na companhia ainda parece uma boa ideia.



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