A filosofia ESG pode trazer valor intrínseco para a empresa?

Atualizado: Jan 25

Por Bernardo Soares e Gabriel Dalbone | 13/08/20


A pandemia provocada pela Covid-19 marcou uma transformação de práticas e costumes em nossa sociedade, acelerando tendências que existiam anteriormente, como a necessidade e a praticidade da tecnologia, como consequência do período de isolamento social em que estamos vivendo.


O e-commerce, por exemplo, obteve um crescimento substancial não só no Brasil como no mundo inteiro após o desencadeamento da pandemia. Já que o isolamento social trouxe impactos significativos para o varejo, para não perder lucro, muitas companhias aceleraram a transformação digital para passarem a vender pela internet. As vendas online, no mês de abril, registraram R$9,4 bilhões, um aumento de 81% em relação ao mesmo período do ano passado. As empresas que já tinham seu sistema de e-commerce desenvolvido antes do período de quarentena conseguiram se adaptar mais rapidamente e foram menos prejudicadas pela crise. É o caso da Magazine Luiza, que registrou um crescimento de 73% das vendas online no primeiro trimestre de 2020, o que fez com que a companhia continuasse a apresentar bons resultados mesmo com o fechamento de todas as suas lojas físicas.


Entretanto, o uso da tecnologia não foi a única tendência a ser acelerada. O "capitalismo consciente", um tema que ganhou destaque durante o período de lock-down, fez com que diversas empresas adotassem, dentro de seus objetivos, temas como a sustentabilidade e benefícios para a sociedade, enfatizando a transformação do mundo. As ESG's, do inglês Environmental, Social & Governance, são companhias que incorporam preocupações sustentáveis e sociais nas suas operações, tendo dentre suas metas, não apenas a geração de lucros como também suas contribuições para a transformação do mundo, em respeito a todas as indicações e boas práticas ambientais e sociais.


Não se trata de uma surpresa, no entanto, que grandes gestoras não só do Brasil como do mundo inteiro passaram a adotar esse termo como critério no momento da avaliação das empresas nas quais investem. A BlackRock, com mais de U$7 trilhões sob gestão, que ganhou o título de maior gestora de recursos do planeta, colocou no seu centro de construção de carteiras e da gestão de risco a prática de investimentos sustentáveis. Em sua última carta anual, a BlackRock anunciou que removeria todos os seus investimentos em empresas com alto risco ambiental. Outras grandes empresas, como a XP Investimentos e as gestoras JGP e Constellation Asset Management, também adotaram essa filosofia e criaram fundos destinados a investir em empresas apenas com essas preocupações sustentáveis e sociais. O próprio CEO da Constellation, Florian Bartunek, acredita que o termo ESG será um tema tão corrente em um futuro próximo que virá a ser o novo normal no dia-a-dia. Ele também afirma que empresas com boas métricas ESG performam melhor do que as empresas com quase nenhuma métrica, após um levantamento feito nos últimos cinco anos, afirmando que as empresas ESG tiveram 14% a mais de retorno do que as demais empresas. Mas até que ponto possuir a filosofia ESG realmente traz valor intrínseco para as empresas no longo prazo?


Para analisar esta pergunta, podemos recorrer, inicialmente, a depoimentos de grandes gestores. Em uma primeira abordagem, o CEO da BlackRock, Laurence D. Fink, afirma que, para gerar valor no longo-prazo, é necessário que as empresas tenham propósitos sustentáveis e sociais, e considerem as amplas necessidades de seus acionistas. Assim pensa Warren Buffet, um dos maiores investidores do planeta, que apresenta nas cartas anuais de sua empresa, Berkshire Hathaway, alguns fundamentos de valuation, assim como de governança corporativa, os quais considera essenciais na obtenção de lucros sustentáveis no longo-prazo. Para Buffet, a companhia precisa tratar os acionistas como sócio-parceiros para os quais a empresa busca entregar retornos, tendo certa transparência em suas decisões, assim como precisa haver em seu conselho uma preocupação com o social, tendo uma diversidade de membros e conselheiros independentes.


No Brasil, temos segmentos da Bolsa em que, para participarem e estarem listadas, as empresas precisam cumprir com certos requisitos de governança corporativa, visando a proteção dos acionistas e a profissionalização da gestão. É o caso do segmento Novo Mercado, por exemplo, que requer que as empresas tenham ao menos 20% dos seus conselheiros independentes e com mandato máximo de dois anos, que garanta tag along de 100%, mantenha um free float de pelo menos 25% e não seja permitida a emissão de ações preferenciais, as que não dão direito a voto.


Florian Bartunek também acredita que empresas com boas métricas ESG serão negociadas a múltiplos mais altos, ficando mais caras, ao passo que o restante ficará mais barato. No entanto, ele acredita que, mesmo com múltiplos mais altos, os investidores não vão querer ficar de fora, já que será mais gratificante investir nessas empresas que trarão consequências melhores para o mundo.


Dessa maneira, podemos pensar que companhias com boas práticas ambientais, administrativas e sociais podem evitar perdas financeiras deste e de outros gêneros, podendo gerar valor no longo prazo, enquanto companhias que não seguem a filosofia ESG podem sofrer o efeito contrário e perder valor no longo prazo.


Primeiramente, respeitar a legislação ambiental não apenas promove uma imagem positiva da empresa e gera credibilidade, atraindo mais clientes e consumidores para a companhia, como também assegura uma conduta empresarial correta e evita punições legais e judiciais para a empresa e para seus gestores. Entre uma série extensa de leis que regem a proteção ao meio ambiente, a Lei de Crimes Ambientais (lei número 9.065/98), ganha destaque, visto que ela define que as multas previstas podem chegar a R$ 50 milhões e a punição só será extinta caso se comprove a recuperação do dano ambiental, o que também pode custar milhões.


Em uma análise mais aprofundada, o descumprimento das leis e a falta de licenciamento ambiental para o exercício das atividades prejudicam o seu maior patrimônio, que se trata de sua reputação. Quando uma empresa é identificada como uma agressora do meio-ambiente, ela acaba gerando um prejuízo em sua imagem, gerando descrença e desconfiança de todo o mercado. Isso provoca uma diminuição das vendas, atrapalha a geração de fluxo de caixa para a empresa, podendo até causar prejuízos, levando a uma queda do preço justo das ações, da sua saúde financeira e do seu poder de decisão, assim como torna-se mais difícil a tomada de empréstimo. Segundo um levantamento feito pelo G1, a incidência de multas aplicadas pelo Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente) vem diminuindo, porém ainda se encontra em patamares relativamente altos, já que isso pode ser simplesmente por menos fiscalização, e não necessariamente demonstra menores níveis de infrações ambientais. Esse fator pode ser observado no gráfico abaixo:



Há inúmeros exemplos de empresas que já foram multadas por crimes ambientais no Brasil, como a Sanepar, que foi multada nas Operações Iguaçu-Água Grande no valor de R$205 milhões por, dentre outras razões, o lançamento de efluentes irregulares e poluição. No total, as multas desta natureza chegaram a acumular mais de R$300 milhões e foram zeradas após a companhia fechar um acordo com o IBAMA em 2017 para investir R$1 bilhão em obras de saneamento, na recuperação do Rio Iguaçu, e pagar indenizações. Além disso, o caso incentivou a companhia a incorporar melhorias no compliance ambiental e implementar um Sistema de Gestão de Riscos Ambientais, ambas melhorias significativas na gestão. Mesmo chegando a essa solução, é justo afirmar que a imagem da empresa foi seriamente prejudicada com o episódio.


Ademais, é indubitável que, atualmente, funcionários estejam cada vez mais conscientes de seus direitos no local de trabalho e estão dispostos a tomar medidas contra os empregadores que violarem as leis vigentes. Empresas que não se preocupam com o lado social de sua empresa e a estrutura de governança podem sofrer com processos trabalhistas, independentemente de ser por jornada excessiva de trabalho, por desvio de função, por danos morais, por rescisão contratual injusta, por pagamentos atrasados, por falta de vínculo empregatício ou de outros benefícios assegurados pela lei. As penalidades causadas por infrações contra a legislação trabalhista podem incluir não só quitação do pagamento com o empregado, como também podem acabar em multas para a empresa, estimulando a ação de outros empregados e comprometendo a reputação da empresa, o que no limite pode atrapalhar a atração de talentos. Isso tudo pode retratar para seus funcionários e clientes certa falta de comprometimento da companhia com o seu lado social, podendo atrapalhar a produtividade e consequentemente a geração de valor. Com isso, da mesma forma que ocorre com a falta de preocupação com o meio ambiente, as disputas trabalhistas podem acarretar em uma redução do valor das ações da companhia. Para enfatizar o efeito nefasto das ações trabalhistas na performance das empresas, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) divulgou que o número de processos trabalhistas somou R$ 30 bilhões em 2018. Apesar de ter havido uma diminuição com relação ao ano anterior, o número continua alto, ainda mais após a Reforma Trabalhista em 2017. Dessa maneira, é possível ver como isso se trata de um problema corrente para as empresas no Brasil.

Não é surpreendente, portanto, que empresas com boas métricas ESG tenham vantagens e menos obstáculos na jornada de geração de valor no longo-prazo. O Bank of America, após realizar um estudo com as 500 maiores empresas dos Estados Unidos, chegou à conclusão que padrões ESG em empresas é uma forma de gerar retornos excedentes. Além disso, pesquisas da empresa americana MSCI, que criou o índice MSCI KLD 400 Social Index para expor o investidor à companhias com alto padrão ESG, reunindo empresas com estratégias focadas em aumentar a exposição da carteira a empresas com padrões ESG ou que estão melhorando nesse critério, apontam que estas foram menos voláteis e superaram o desempenho do S&P nos últimos 30 anos, conforme o seguinte gráfico:



Fonte: XP


Um outro fator que pode levar empresas com filosofia ESG a gerarem valor intrínseco no longo prazo é a redução dos riscos, já que estão menos sujeitas a sofrerem uma mancha em sua reputação ou penalidades financeiras, e consequentemente apresentam geração de caixa mais previsível. Tendo em vista que um modelo de fluxo de caixa descontado (DCF) busca estimar os fluxos de caixa futuros da companhia trazidos a valor presente por uma taxa de desconto que leva em conta os riscos da empresa no meio da sua trajetória, de modo a achar o preço justo da ação da empresa, a mitigação de riscos torna-se fundamental para a geração de valor e performance da companhia no longo prazo.


Alguns setores mais expostos aos riscos ESG, como o setor de petróleo e de gás, podem ter seus modelos de negócio questionados no que tange à sua sustentabilidade, fazendo com que, assim, sua taxa de desconto seja mais elevada mediante aos riscos e seu valor seja reduzido quando estamos trabalhando com projeções futuras de geração de caixa da empresa. Isso tudo se deve por conta do aumento do prêmio de risco exigido pelos investidores, elevando o fator de desconto do modelo de valor intrínseco (Ke), ilustrando o por que empresas ESG que mitigam seus riscos podem resultar em mais valor no longo prazo.


O tema se torna ainda mais relevante se olharmos para o investimento estrangeiro no Brasil. O número de fundos estrangeiros completamente focados em ESG ou que incorporam as métricas em suas análises cresce a cada ano, podendo impactar empresas que precisam do financiamento estrangeiro. E a capitalização não se limita à renda variável. As green bonds, títulos focados em projetos de sustentabilidade, comumente incentivados a partir da isenção de impostos, ganham cada vez mais importância no cenário mundial, tendo sido emitidos aproximadamente US$250 bilhões em 2019 nessa categoria contra menos de US$50 bilhões em 2015. Ou seja, empresas desta qualidade têm, potencialmente, acesso a financiamento mais barato, podendo repercutir na performance de longo prazo.




A partir de todos esses fatores, pode-se concluir que empresas com boas práticas ESG performam melhor do que as outras no longo-prazo, seja por estarem menos vulneráveis aos riscos de sofrerem com ações judiciais, multas, ou terem suas reputações questionadas, seja por gerar mais valor por estarem em setores mais atrativos ou através da retenção de talentos decorrentes de suas boas práticas, preocupações e um bom ambiente de trabalho. Em um mundo em que os cidadãos se mostram, mais do que nunca, preocupados com impactos positivos na sociedade em decorrência de boas práticas sociais, sustentáveis e administrativas, é mais importante do que nunca monitorar as empresas mais de perto e fazer due dilligence, pois nem tudo é demonstrado nos resultados.





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Referência da foto de capa: https://www.luzdaserra.com.br/3-ervas-que-atraem-dinheiro-para-sua-vida